"Nubes" es un inesperado relato de Oscar Niemeyer, que resulta al menos envolvente tanto por la fascinante historia de una mujer en las nuves, como por el idioma que la relata...
"Sempre que viajava de carro para Brasília minha distraçao era olhar as nuvens do céu.
Quantas coisas inesperadas elas surgerem! Às vezes sao catedrais enormes e misteriosas, as catedrais de Exupéry com certeza; outras vezes guerreiros terríveis, carros romanos a cabalgarem pelos ares; outras ainda, monstros desconhecidos a correrem pelos ventos em louca disparada e, mais freqüentemente orque sempre procurava, lindas e vaporosas mulheres recostadas nas nuvens, a sorrirem para mim dos espaços infinitos.
Mas logo tudo se transformava: as catedrais se desvaneciam em branco nevoeiro, os guerreiros viravam préstitos carnavalescos intermináveis; os monstros se escondiam em escuras cavernas, para surgirem adiante, mais furiosos ainda, e as mulheres iam se esgarçando, se estendendo, transformadas em pasaros ou negras serpentes.
Muitas vezes pensei fotografar tudo isso, tao exatas eram as figuras que apareciam. Nunca o fiz.
Mas, sempre que viajo, loar para as nuvens é a minha distracçao predileta, curioso, procurando descifrá-las como como se estíbese em busca de uma boa e esperada mensagem. Naquele dia, porém, a visao foi mais surpreendente. Era uma bela mulher, rosada como uma figura de Renoir. O rostro oval, os seios fartos, o ventre liso, e as longas a se entrelaçarem nas nuvens brancas do céu.
E fiquei a olhá-la embevecido, com medo de que se diluísse de repente. Mas os ventos daquele tarde de verao me deviam estar ouvindo e durante muito tempo ela ali ficou a me loar de longe, como a convidar-me para subir e com ela, entre as nuvens, brincar um pouco.
Mas o que temia tinha de acontecer. E pouco a pouco a minha namorada foi se diluindo, os braços se alongando com desespero, os seios a voarem como se destacando do corpo, as longas pernas se contorcendo em espiral, como se dalai ela nao quisesse sair. Só os olhos continuavam a me fitar, cada vez maiores, chaios de espanto e tristeza, quando uma nuvem maior, densa e negra, a levou para longe de min.
E continuei a segui-la, inquieto, vendo-a lutar entre as nuvens que a envolviam, fustigada pela fúria dos ventos que a dilaceravam impiedosamente.
E senti como aquela metamorfose perversa se assemelhava ao nosso próprio destino, obrigados a nacer, crecer, lutar, morrer e desaparecer para sempre, como ocorria com aquela bela figura de mulher."
Oscar Niemeyer
Arquitecto